Saiba que isso pode ser um sistema de defesa pessoal
Há não muito tempo, atender ou realizar ligações de
um telefone fixo era uma ação de comunicação bem comum entre as pessoas. Gastar
minutos, ou até mesmo horas do dia, na linha batendo papo com as pessoas fazia
parte da rotina – pelo menos para a geração Millennial, que nasceu num mundo
analógico e acompanhou as transformações que levaram a um mundo digital. O
telefone foi um dos primeiros e mais importantes sistemas de comunicação
imediata que cobria grandes distâncias. Ter um aparelho telefônico em casa foi
um importante avanço social.
Porém, atualmente, receber uma ligação parece ser
um incômodo, quase uma ofensa a quem está do outro lado da linha. Tanto que é
bem provável que a função que você menos use em seu celular seja a chamada de
voz. As mensagens de texto, redes sociais e e-mails substituem a tradicional
conversa ao telefone. Um dos aplicativos de comunicação mais popular do mundo,
o WhatsApp, estima que cerca de 100 bilhões de mensagens são entregues por dia.
Mas por que não gostamos mais
de receber ligações?
A psicóloga e professora do curso de Psicanálise da
Uninter, Juliana dos Santos, explica que muitas pessoas ficam ansiosas com o
ato de falar ao telefone. “Vivemos muito fragilizados com tantas informações de
violência e incertezas sobre o futuro, assim, mediar essa relação com o próximo
é um sistema de segurança que a pessoa pode fazer por si. Nesse sentido, as
mensagens de texto podem contribuir para esse controle, pois, dessa forma,
ninguém é pego de surpresa e temos a sensação de poder controlar esse tempo de
estímulo e resposta”, explica a psicóloga.
Outro fator pelo qual ficamos receosos ao receber
uma ligação ocorre pelo volume de atividades que realizamos diariamente.
“Quando paramos para atender uma ligação, de algum modo, rompemos com a nossa
rotina, ao passo que podemos nos organizar para responder às mensagens
assíncronas quando tivermos tempo para elas. Assim, as ligações tornam-se cada
vez mais obsoletas, sendo normalmente associadas a cobranças ou operações de
telemarketing. Elas tendem a sobreviver apenas na comunicação com pessoas
queridas, ou em caso de urgências”, esclarece o filósofo e também professor da
Uninter, Douglas Lopes.
As tecnologias se transformam, mas não solucionam tudo
Por outro lado, a substituição da ligação por
mensagens de texto e de voz nada mais é que uma evolução natural da tecnologia.
Os aparelhos celulares, por exemplo, causaram grande impacto social, pois
possibilitaram o atendimento de chamadas em qualquer lugar com cobertura de
rede. Depois disso vieram os SMSs, com possibilidade de comunicação assíncrona.
Já os aparelhos touch screen trouxeram para a nossa realidade o uso de
aplicativos que possibilitam desde transações bancárias, compras on-line,
transporte e outros diversos recursos.
“Nossas demandas se ampliam conforme os avanços
tecnológicos, e isso nos deixa com pouco tempo. Muitas vezes, a rotina não nos
permite parar para atender uma ligação e conversar de forma síncrona com as
pessoas. Porém, precisamos ser cautelosos em relação ao tempo de vida que temos
e as possibilidades de conviver com as pessoas que amamos, pois até agora as
tecnologias não conseguiram nos dar soluções para reposição do tempo, que temos
a sensação de estar passando muito rápido”, conclui o filósofo.
Mensagens de texto também
criam vínculos
Neste mar de palavras e emoticons, nem tudo está
perdido. Na análise da psicóloga Juliana, criar vínculos com as pessoas está
além do contato falado.
“As mensagens escritas também cumprem essa função
de criação de vínculos. Aliás, se pararmos para pensar, a escrita é muito mais
arcaica do que as conversas telefônicas. Então, a escrita cumpre bem essa
função de aproximação entre as pessoas. Muitos até conseguem se expressar com
mais facilidade materializando o seu pensamento com a escrita. Existem pacientes
em meu consultório, na maioria adolescentes, que para dizer algo que consideram
difícil aos seus pais, eles recorrem à mensagem do WhatsApp, o que eu considero
muito válido, pois pior seria se nada fosse dito”, conclui a especialista.
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