segunda-feira, 24 de outubro de 2022

Pole: é tempo de profissionalizar o esporte


É fato que os minor sports (esportes menos praticados em determinados contextos) têm obtido novas oportunidades ao longo dos últimos anos. Em parte, pode-se dizer que as redes sociais e as amplas possibilidades de fazer-se mostrar exercem um papel fundamental nesse sentido. Assim, vemos a ascensão da prática e promoção de esportes que, há algumas décadas, estavam longe de holofotes, sendo, inclusive, marginalizados. Podemos citar como exemplo os E-sports, o Surf, o Skate e a Escalada; os três últimos, olímpicos. 

Implicações bastante positivas resultam dessa ampliação do universo esportivo: em primeiro lugar, aumentam as possibilidades de match entre potenciais praticantes e novas modalidades. Em segundo e não menos importante, o maior consumo desses novos esportes cria um ambiente favorável a maiores investimentos e pesquisa, o que, inevitavelmente, resulta em aprimoramento técnico e legitimação da modalidade. Um exemplo com o qual estou diretamente envolvida é o Pole (em suas vertentes Arte e Sport); modalidade que consiste no uso de aparelho vertical (fixo e giratório) para a realização de evoluções e figuras (movimentos específicos do código da modalidade). A prática do Pole é bastante recente, possuindo muitas similaridades com a ginástica em suas vertentes artística e rítmica, e exigindo do praticante níveis elevados de força, flexibilidade e coordenação. Uma modalidade extremamente interessante, em termos de prática esportiva, mesmo para aqueles que não intentam atuar em esfera competitiva. 

Podemos dizer que o esporte já está, em termos organizacionais e técnicos, bastante consolidado, regulamentado por federações, confederações e ligas, com um número de praticantes em crescimento, e trabalhos específicos para formação de jovens atletas nativos da modalidade (não advindos de outros esportes). Um obstáculo à consolidação da modalidade, talvez, infelizmente, esteja relacionado ao preconceito advindo da imagem negativa que a relaciona à sexualização. Outro obstáculo à profissionalização, em certo aspecto derivado desse, é a falta de pesquisa e profissionais das ciências do esporte interessados em realizar pesquisas na modalidade, além da escassez de patrocínio, um problema comum a diversas e numerosas modalidades. 

No quesito formação de atletas jovens, destaca-se o trabalho da LIBAPS (Liga Brasileira de Aéreos e Pole Sports), filiada à liga mundial APS (Aerial and Pole Sports League) e sua presidente Janiere Cunha, profissional de Educação Física, que tem realizado um trabalho excepcional em seu Centro de Treinamento, em Santa Catarina. Fiz parte da seleção brasileira, como atleta, no Mundial de Aéreos e Pole Sports, realizado em Cancún, no mês de outubro, e pude acompanhar de perto esse belo trabalho. Ainda, destaque para formação e difusão da modalidade, e pleito olímpico, realizado pela CBAPS (Confederação Brasileira de Aéreios e Pole Sports), filiada a IPSF (International Pole Sports Federation), da qual tomo parte como juíza, e seu presidente Paulo Kummel. 

Minha trajetória, em âmbitos pessoal e profissional, está ligada ao Pole. Venho do Teatro e de uma família com DNA tradicionalmente esportivo; portanto, sempre transitei por esses dois mundos: Arte e Esporte. A possibilidade de aliá-los (composição e criatividade artísticos ao treino técnico desafiador) em uma única modalidade, foi o que me encantou no Pole. Meu primeiro contato, que consistiu mais em conhecimento e admiração, e umas poucas aulas, foi em 2008, após ter assistido a um campeonato europeu. Em 2012 comecei meu processo de formação e treino específico e, apenas em 2015, passei a me dedicar de fato, com foco em competições e desenvolvimento de metodologia própria. 

A lida com o corpo também é pauta de minha pesquisa acadêmica na área das linguagens, conforme descrito em minha tese doutoral que relaciona corpo a texto, enquanto veículos de expressão. Esse intento investigativo aliado à paixão pela prática esportiva levaram-me à graduação em Educação Física (Licenciatura e Bacharelado), e outras formações na área esportiva, além de uma graduação em Nutrição, em andamento. O objetivo é aprofundar o conhecimento específico relacionado ao Pole e modalidades correlatas, como os Aéreos e a Ginástica. 

Esse movimento que observo em minha própria trajetória, que parte da paixão pelo esporte e do empírico, para ir, aos poucos, alcançando níveis de aprimoramento técnico e tático, pode ser lido como o movimento natural que se espera, em esfera macro, com a própria modalidade. Para tanto, é necessário que haja promoção, esforço conjunto e muito trabalho. E, quem sabe, a exemplo do Skate e do Surf, hoje tão queridos no país, e celeiro de talentosos atletas, o Pole não venha também a “bater um bolão” em um futuro próximo? Seja quando for, estarei lá... E na torcida!

 

Fernanda Nardy Bellicieri - professora pesquisadora do Centro de Comunicação e Letras (CCL), nas disciplinas Marketing Esportivo, Cultural e Entretenimento e Produção Audiovisual na Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM). É graduada em Publicidade e Propaganda -- Marketing pela UPM (estágio na TV Mackenzie), em Educação Física (Bacharelado e Licenciatura -- com estágio no Colégio Mackenzie) e em Nutrição (em andamento), mestre e doutora pela UPM (Educação, Arte e História da Cultura), e pós-graduada em Biomecânica do Treinamento. Além disso, é campeã brasileira semi-profissional 2021 (CBAPS), campeã brasileira profissional 2022 (LIBAPS) e campeã Mundial 2022 (APSWL/pela LIBAPS), na vertente Pole Art, entre 40 e 49 anos, juíza e coach de Aéreos e Pole Sports pela IPSF, personal trainer pelo American Council on exercise (ACE), especialista em Fitness and Sports Nutrition e em Sports Performance, também pela ACE, e treinadora certificada pela Pole Fitness Alliance.


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