Ao governante, é muito
simples dizer que a natureza indomável, uma chuva torrencial e atípica provocou
tragédias humanas deploráveis.
Evidentemente, ele não irá
admitir que foi omisso e, para afastar sua responsabilidade, também não falará
dos erros de seus antecessores.
Decretará emergência, pedirá
socorro, derramará lágrimas de crocodilo que descerão pelas enxurradas
barrentas.
Há muitos motivos, mas
pensemos numa questão de método. Como deve o homem conviver com natureza?
Ambos são partes recíprocas
de um imenso organismo que devem interagir criativamente. No entanto, uns
pensam que o homem deve agredir a natureza e outros que a devem proteger,
deixá-la intocada e livre de qualquer hipótese de intervenção. Ambos, em nosso
modo de ver, estão equivocados.
A natureza dá vida ao homem
e o homem dá vida à natureza. Esta não é algo perfeito e acabado. Deus nos deu
a tarefa, como seres dotados de inteligência, de aperfeiçoá-la. Os desastres
naturais ocorreram desde que o mundo é mundo, com a ressalva de que se
agravaram nos últimos tempos, quando a agredimos em certos pontos, que se
irradiam a todos os demais.
Nada justifica que um
córrego não conduza apenas suas águas limpas, mas os despojos dos esgotos e o
lixo que o injuriam. É perfeitamente possível morar - e aprazível - à beira de
um riozinho que corta nosso espaço urbano, mas devidamente respeitadas e
mantidas suas águas puras.
Metade da população do
Brasil não tem redes de esgotos, que acrescentam nossas excrescências aos rios.
Um dia, em que chuvas se
precipitam em níveis maiores do que os habituais, eles nos dão suas respostas.
Como não há canalizações,
barragens modernas, taludes gramados em suas margens, piscinões suficientes,
vem a tragédia humana: transbordam, invadem as casas, os prejuízos são
inevitáveis e pobres criaturas sobreviventes se abrigam onde podem, amarguradas
pelas perdas materiais de toda uma vida e adoentadas pela insalubridade.
Em suma, devemos dialogar
construtivamente com a natureza. Intervir em sua essência, porém, em termos
tais que a natureza se aperfeiçoe e afaste suas hostilidades.
Nossa conduta - agressiva ou
omissiva - determina a ocorrência das tristes tragédias de nossos irmãos
chafurdados na lama e no desespero. E por "nossa" entendam o
desprezo dos políticos por seus governados, numa "democracia representativa",
que exige ética, engenho e arte, três plantas exóticas na terra em que vivemos.
Amadeu
Garrido de Paula - Advogado, sócio do Escritório
Garrido de Paula Advogados.
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