sexta-feira, 17 de junho de 2016

Especialista explica como combater transtornos associados à dislexia e amenizar seus efeitos



Psicopedagoga confronta os mitos sobre discalculia, disortografia e disgrafia, e ensina como os pais podem identificar e ajudar os filhos

Cada vez mais sob os holofotes de educadores e profissionais especializados na saúde e bem-estar das crianças, a dislexia é um transtorno na área de leitura e escrita que pode afetar o processo de aprendizado. A psicopedagoga, fonoaudióloga e especialista em  dislexia e desenvolvimento infantil Sheila Leal ensina que há alguns distúrbios que podem vir associados à dislexia, como a discalculia, disgrafia e disortografia. “Precisamos compreender bem estes distúrbios principalmente para combater o preconceito e ajudar na melhoria da qualidade de vida das crianças”, explica Sheila, que alerta para a grande quantidade de pessoas que associam estes transtornos à “preguiça” ou outros rótulos que dificultam ainda mais o processo de superação da criança.

Conceitos matemáticos
Sheila Leal explica que a discalculia acompanha alguns casos de dislexia, e significa falta de habilidade com conceitos matemáticos. “A discalculia não deve ser confundida com o simples fato de uma criança não gostar de matemática na escola”, explica. A especialista ensina que a discalculia pode ser vista até mesmo antes de uma criança aprender cálculos matemáticos mais complexos. “Ela pode ser vista a partir dos 4 anos, por exemplo, em crianças que não conseguem aprender a diferença entre horários da tarde e da manhã, ou não consegue se familiarizar com o calendário”.

Segundo a psicopedagoga, a discalculia pode ter grau leve, moderado ou severo. “O grau do distúrbio também depende muito dos estímulos dados pelos pais, mas infelizmente é muito difícil de diagnosticar, já que existe apenas um teste que ainda não é reconhecido”, explica. Uma das formas de trabalhar matemática com crianças que têm este distúrbio é focando em questões multissensoriais. “O professor terá que colocar os sinais matemáticos em cores diferentes, assim como usar a criatividade para fazer associações de cálculos e números com objetos e outras brincadeiras, por exemplo”, explica Sheila, que alerta para a importância do professor no desenvolvimento da criança com discalculia.

A forma ortográfica
Sheila ensina que a disortografia ocorre quando a criança não consegue entender e aplicar as regras gramaticais. Ou seja, uma mesma palavra pode ser escrita de várias formas: causa; calça;causa… A dificuldade é mais evidente pois não consegue assimilar as regras gramaticais. E não adiante solicitar que a criança escreva a mesma palavra várias vezes.
A especialista adverte que a disortografia não pode ser associada à falta de inteligência. “Como ela está associada à dislexia, e este distúrbio ocorre em pessoas com QI médio ou superior, precisamos derrubar esse mito”.

Apesar de a escola ter papel fundamental nos estímulos de crianças com este distúrbio, Sheila explica que há diversas atividades que os pais podem fazer em casa para estimular os filhos. “Brincar de forca ou atividades de soletrar, por exemplo, são ótimas brincadeiras”, conta, acrescentando uma ideia que pode ser feita ao fim de uma refeição. “Você pode brincar com as crianças de começar guardando na geladeira apenas o que tem a letra S, por exemplo”, explica.

As letras e a coordenação motora
A disgrafia é um distúrbio totalmente ligado à coordenação motora, e tem relação essencialmente com a forma de escrever as letras. “As crianças com disgrafia possuem dificuldade de pegar no lápis da forma correta, aplicam a pressão errada no papel e muitas vezes não entendem o espaço da linha”, resume Sheila. A especialista também lembra que há casos de disgrafia no qual o paciente não entende que a escrita deve ser feita da esquerda para a direita, por exemplo.

A disgrafia, embora se manifeste com mais clareza no início da alfabetização, pode ser identificada um pouco antes. “Desde a primeira infância, é possível observar se a criança compreende a diferença entre esquerda e direita, e pode ter dificuldade para definir força e direção na hora de chutar uma bola, por exemplo”, conta. Segundo Sheila, a partir dos 4 anos já é possível identificar características da disgrafia, e por isso sugere algumas atividades que podem tanto ajudar na identificação quanto amenizar os efeitos negativos da disgrafia. “Pedir ajuda dos filhos para colocar a mesa, ou brincar durante o banho pedindo para que lave primeiro o braço direito e depois o esquerdo, por exemplo, são formas de aprimorar a lateralidade do cérebro”, indica.

Por fim, Sheila destaca a importância de haver uma relação de parceria dos pais com a escola, e de que os pais estimulem brincadeiras educativas ou que trabalhem a coordenação motora, como escrever com o dedo no vidro do banheiro, por exemplo. A psicopedagoga desencoraja o uso de cadernos de caligrafia para crianças com disgrafia, já que eles podem representar dificuldades demais e linhas muito finas. “No entanto, o uso de tablets e computadores pode ser uma ótima ideia, porque eles têm aplicativos excelentes para treinar a letra e estimular as crianças, e ainda oferecem uma opção para que os alunos digitem em vez de se limitarem à escrita cursiva”, destaca Sheila, que adverte para que os tablets sejam usados como complementares, e não substitutos absolutos de qualquer prática de escrita.


Sheila Leal  - Fonoaudióloga, psicopedagoga e especialista em dislexia. traz um novo olhar sobre o papel dos pais na evolução e aprendizagem das crianças



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