sexta-feira, 29 de maio de 2015

Denúncias de violência contra idosos crescem 230% nos últimos quatro anos




Negligência, violência psicológica e abuso financeiro concentram a maioria das denúncias
Segundo dados da Secretaria de Direitos Humanos, o número de denúncias de violência contra idosos cresceu 230% nos últimos quatro anos. Os últimos números disponíveis do Disque 100, serviço de denúncias anônimas, apontam 27.178 denúncias envolvendo essa população em 2014. Segundo o diretor do Conselho Regional de Serviço Social de São Paulo (CRESS-SP), Fábio Rodrigues, o montante real de casos de violência deve ser muito maior, já que nem sempre é feita a denúncia.
“Muitas vezes, os agressores são os próprios familiares, que moram na mesma residência que o idoso. Diversos fatores contribuem para o silenciamento, desde vergonha e chantagem até déficit cognitivo, isolamento social ou mesmo dependência. Essas vítimas podem se sentir responsáveis pelos problemas familiares, preferindo sofrer a reivindicar seus direitos ou melhores condições de vida”, explica o assistente social.
Radiografia da violência
Os últimos dados da Secretaria mostram que as denúncias de negligência concentram 38% do total, seguidas por violência psicológica (27%), abuso financeiro e econômico (19%) e violência física (13%). A preponderância desses tipos de casos, explica o diretor do CRESS-SP, está ligada à realidade brasileira, historicamente associada ao desamparo por parte do poder público. Ele lembra que consta no Estatuto do Idoso, Art. 10 do Cap II, a obrigação do Governo de garantir a participação do idoso na vida familiar e comunitária.
“Em um Estado ausente, que mantém a população em aspectos mínimos de condições de trabalho, saúde, educação, moradia e qualidade de vida, a negligência se torna comum. Essa condição está associada à falta de acesso a direitos. Dessa forma, seu enfrentamento deve ser alvo de políticas públicas”, diz Rodrigues.
Os dados mostram que os próprios filhos são os suspeitos em mais de metade das denúncias realizadas em 2014, somando 51% do total, seguidos por casos em que os agressores não são identificados (11%) e netos (8%).
Condições precárias
Ainda para o diretor do CRESS-SP, as políticas existentes são insuficientes para atender a população idosa. Ele cita os serviços públicos de saúde como um exemplo: “Falamos de hospitais com poucos leitos, instituições de longa permanência com baixo número de vagas e um quase inexistente atendimento na internação domiciliar. A rede de serviços e equipamentos sociais é precária e há poucos profissionais geriatras e gerontólogos para atender os idosos”.
Essa falta de alternativas, combinada à instabilidade econômica, torna o abandono de idosos em hospitais e instituições uma prática comum. Sem terem um Estado presente a quem recorrer, muitos familiares enxergam essa opção como única alternativa possível.
Enfrentando o problema
Quando analisado sob a perspectiva do envelhecimento da população, com o prolongamento progressivo da expectativa de vida propiciado pelos avanços da medicina, o problema da violência contra o idoso ganha maiores proporções. Segundo dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil será o sexto país do mundo em número de idosos até 2025.
“A sociedade precisa se preparar para o envelhecimento. É necessário realizar campanhas e criar mecanismos para garantir os de direitos da população idosa, tema já em discussão no âmbito legal, mas ainda pouco efetivado nas políticas sociais, em especial no tripé da Seguridade Social (Previdência Social, Saúde e Assistência Social). Isso é fundamental para que essa população, trabalhadores e trabalhadoras que sofrem diretamente com os impactos da precária política previdenciária, vivam com dignidade. É notório que as medidas de ajuste fiscal atualmente operadas pelo Governo são um verdadeiro ataque que acaba deixando essas pessoas cada vez mais expostas à pobreza e à vulnerabilidade e risco sociais”, finaliza o diretor do CRESS-SP.

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