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Pesquisa realizada por brasileiro mostra que a desregulação do relógio circadiano das células hepáticas favorece o acúmulo de colesterol, inflamação e fibrose, agravando a doença hepática associada à obesidade e ao diabetes
Uma
pesquisa internacional acaba de trazer novas evidências de que o relógio
biológico presente nas células do fígado desempenha um papel central na
progressão da esteato-hepatite associada à disfunção metabólica (MASH, na sigla
em inglês), uma das formas mais graves da doença hepática gordurosa metabólica,
condição que afeta milhões de pessoas em todo o mundo e está intimamente
relacionada à obesidade, diabetes tipo 2 e síndrome metabólica.
O
estudo, publicado na revista científica Cellular and Molecular
Gastroenterology and Hepatology (CMGH), investigou o que acontece quando o
gene BMAL1, considerado um dos principais reguladores do relógio
circadiano, é removido especificamente dos hepatócitos, as principais células
responsáveis pelas funções metabólicas do fígado.
Os
resultados mostram que a perda desse mecanismo temporal compromete
profundamente o funcionamento metabólico do órgão e acelera processos
associados à inflamação e à fibrose hepática, características que marcam a
evolução da doença para estágios mais severos.
Segundo
os pesquisadores, o trabalho reforça a crescente percepção de que o relógio
biológico é um componente essencial da saúde metabólica.
"Os
dados demonstram que o relógio circadiano dos hepatócitos não apenas organiza
processos metabólicos diários, mas também protege o fígado contra alterações
que favorecem a progressão da doença", explica Dr. Leonardo de Assis,
brasileiro e primeiro autor do estudo.
Quando o relógio do fígado perde o ritmo
Para
compreender o papel do relógio biológico hepático, os pesquisadores utilizaram
modelos experimentais nos quais o gene BMAL1 foi removido exclusivamente
dos hepatócitos. Os animais foram acompanhados sob dieta padrão e também sob
uma dieta capaz de induzir MASH.
Mesmo
em condições normais, a ausência do gene foi suficiente para alterar o
comportamento temporal de milhares de genes envolvidos em funções metabólicas.
Os cientistas observaram perda de amplitude e mudanças de fase nos ciclos de
expressão gênica, indicando que a coordenação temporal do fígado ficou
significativamente comprometida.
No
entanto, os efeitos mais expressivos surgiram quando os animais foram
submetidos à dieta que induz MASH.
Colesterol emerge como protagonista
Um
dos principais achados da pesquisa foi a identificação de alterações
específicas em vias relacionadas ao metabolismo do colesterol hepático.
Nos
animais que perderam o relógio circadiano hepático, diversos genes responsáveis
pela captação, transporte e degradação do colesterol apresentaram comportamento
alterado. Como consequência, ocorreu um acúmulo significativo desse lipídeo no
fígado; contudo, não houve alteração nos níveis de colesterol sérico.
Os
pesquisadores destacam que o colesterol hepático vem sendo cada vez mais
reconhecido como um fator importante na progressão da MASH, contribuindo para
processos inflamatórios e para o desenvolvimento de lesões hepáticas.
A
descoberta sugere que a função do relógio biológico pode ser particularmente
relevante para manter o equilíbrio do metabolismo do colesterol e evitar que
esse acúmulo contribua para o agravamento da doença.
Mais inflamação e mais fibrose
Além
do aumento do colesterol hepático, os animais sem BMAL1 em seus
hepatócitos apresentaram níveis mais elevados de inflamação e fibrose quando
expostos à dieta indutora de MASH.
A
fibrose corresponde ao processo de cicatrização excessiva do tecido hepático e
representa um dos principais fatores associados à progressão para insuficiência
hepática, cirrose e aumento do risco de câncer de fígado.
Segundo
os autores, os resultados indicam que o relógio circadiano dos hepatócitos
exerce um papel protetor durante o desenvolvimento da doença, ajudando a
limitar mecanismos que levam ao dano hepático crônico.
Uma nova interação molecular
Outro
destaque do estudo foi a identificação de uma possível interação inédita entre BMAL1
e o fator de transcrição ChREBP, uma proteína conhecida por
controlar genes envolvidos no metabolismo de glicose e lipídios.
Análises
bioinformáticas sugeriram que ambos os reguladores exercem funções opostas em
diferentes programas metabólicos. Para testar essa hipótese, os cientistas
realizaram experimentos complementares em laboratório.
Os
resultados mostraram que a redução da atividade de ChREBP está associada
à diminuição da síntese de gordura, confirmando observações anteriores da
literatura científica. Já a redução de BMAL1 levou ao aumento dos níveis
de colesterol celular, um efeito até então pouco explorado e que pode ajudar a
explicar a maior gravidade observada nos modelos de doença hepática.
Evidências também em pacientes
Para
avaliar se os resultados observados nos modelos experimentais tinham relevância
clínica, os pesquisadores analisaram amostras hepáticas de pacientes humanos.
A
comparação revelou que indivíduos diagnosticados com MASH apresentavam
alterações importantes no sincronismo circadiano do fígado quando comparados a
pacientes que possuíam apenas esteatose hepática, estágio inicial caracterizado
pelo acúmulo de gordura sem inflamação significativa.
A
observação reforça a hipótese de que a disfunção do relógio biológico não é
apenas uma consequência da doença, mas pode participar ativamente de sua
progressão.
Novos caminhos terapêuticos
A
doença hepática gordurosa associada à disfunção metabólica tornou-se um dos
principais desafios de saúde pública das últimas décadas. Estima-se que a
condição afete cerca de um terço da população adulta em diversos países,
impulsionada pelo aumento global da obesidade e do diabetes.
Nesse
contexto, os resultados abrem perspectivas para o desenvolvimento de
estratégias terapêuticas capazes de restaurar ou modular o funcionamento do
relógio circadiano hepático.
“Compreender
como o relógio hepático influencia processos metabólicos pode contribuir para
novas abordagens de prevenção e tratamento da MASH, uma doença para a qual
ainda existem opções terapêuticas limitadas”, complementa de Assis.
O
trabalho representa o projeto final de pós-doutorado de Leonardo de Assis na
University of Lübeck, que envolveu a colaboração de pesquisadores da
universidade alemã, da Charité – Universitätsmedizin Berlin e de diferentes
grupos de pesquisa clínicos e experimentais especializados em metabolismo,
hepatologia e cronobiologia. Atualmente de Leonardo de Assis é professor na
Universidade de Gotemburgo, Suécia.
Artigo científico:
Hepatocyte BMAL1 protects from MASH progression through cholesterol metabolism
regulation
PubMed: Link

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