Psicóloga da Unifran detalha como o sentimento de pertencimento une até quem não gosta de futebol e analisa os impactos da perda de expectativas no bem-estar mental.
A Copa do Mundo é muito mais do
que um torneio esportivo: ela funciona como um poderoso catalisador social
capaz de alterar o humor, a rotina e a saúde mental de nações inteiras. Mas
como a psicologia explica essa capacidade única de contagiar até mesmo aqueles
que não acompanham futebol no dia a dia?
Para entender a mente do torcedor
e o impacto desse fenômeno em nosso bem-estar, a Profa. Dra. Ana Paula Barbosa,
coordenadora do curso de Psicologia da Universidade de Franca (Unifran),
analisa os fatores emocionais e sociais que ocorrem no comportamento coletivo
durante a competição.
Contágio
emocional e o sentimento de pertencimento
Segundo a especialista, o
primeiro fator-chave para a "euforia coletiva" é o chamado contágio
emocional, um conceito amplamente estudado pela psicologia do
comportamento.
"Quando uma pessoa que não acompanha
futebol entra em um ambiente onde todos estão vibrando, tensos ou comemorando,
ela começa a se contagiar de forma quase inconsciente. Ela passa a sentir a
dopamina e a adrenalina do grupo, o que automaticamente gera um profundo senso
de pertencimento", explica a docente.
Esse fenômeno vai além da
sensação de simpatia. A psicóloga aponta que pesquisas na interface entre a
psicologia e a biologia comprovam que assistir a eventos com forte carga
emocional em grupo altera o nosso funcionamento de forma real.
"Estudos de neurociência
hoje mostram que as pessoas que assistem juntas a um evento forte, com carga
emocional, entram em uma sincronia neural. Isso é algo extremamente positivo,
pois fortalece os laços sociais e o bem-estar coletivo", destaca.
Além disso, por ocorrer apenas a
cada quatro anos, a Copa do Mundo ativa memórias afetivas e históricas na vida
das pessoas, promovendo um período de "afeto coletivo" onde as
conexões humanas são priorizadas e as rotinas diárias são pausadas em prol da união.
O
outro lado da moeda: o 'luto coletivo' e a dor da perda
Se a vitória gera entusiasmo e
união, a eliminação ou a derrota da seleção pode provocar o efeito oposto,
mergulhando ruas e redes sociais em um verdadeiro luto
coletivo. De acordo com a especialista, essa reação negativa é
um fenômeno psicológico muito real e que precisa ser compreendido.
A frustração da derrota está
diretamente ligada a sentimentos de rejeição e perda de status.
"A rejeição e a perda de
status decorrentes de uma derrota esportiva são sentimentos profundos, que a
ciência mostra que podem, inclusive, ativar áreas cerebrais ligadas à dor
física. Há também uma quebra abrupta de expectativa. No Brasil, país que ama o
futebol, mesmo quem não acompanha o esporte rotineiramente se conecta nesse
momento, gerando uma grande projeção de futuro", pontua a coordenadora da
Unifran.
Muitas vezes, a tristeza pós-jogo
não se deve apenas ao resultado do placar em si, mas sim à perda do
"futuro projetado" que o torcedor construiu em sua mente.
"Às vezes, o luto não é só
pelo jogo em si, mas pela perda do futuro projetado: a festa que não vai mais
acontecer, a alegria que foi bruscamente interrompida e os planos de celebração
que foram desfeitos", complementa a psicóloga.
Como
gerenciar as expectativas e proteger a saúde mental
Para que a experiência da Copa do
Mundo seja saudável e enriquecedora, independentemente dos resultados em campo,
a Dra. Ana Paula sugere que os torcedores busquem ressignificar o papel do
torneio em suas vidas, focando no que ele traz de melhor: as relações humanas.
"Para finalizar, o mais importante é que esse período seja um momento incrível de conexão, de reunião e de aproveitarmos a presença uns dos outros e essa energia boa. Se o resultado esperado não vier, que nós possamos ter a maturidade de guardar a camisa, recolher as bandeiras e compreender que o valor real desse momento não está apenas na vitória ou na derrota, mas sim na nossa capacidade de conexão e união coletiva", conclui.
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