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sábado, 5 de agosto de 2017

Mundo Bipolar



Ao imitar a natureza, com suas sutilezas de noite e dia, céu e terra, mal e bem, o homem atual incrementou o processo rebaixando-o a pequenos tons: é Ocidente e Oriente. Android e iOS. Coxinha e Petralha. Democrata e Republicano. Pepsi e Coca-Cola. China e EUA. O mundo está dividido em duas partes, perigosamente desiguais. Neste mundo binário, se você estiver de um lado, é automaticamente alçado a inimigo do outro, ainda que este outro seja sua mãe que o aleitou;  ou a vovó querida que o acalentou. Daí aos monumentos de intolerância erguidos no cotidiano das grandes cidades mundo a fora é um simples estalar de impaciência.

Por prepotência, projetamos o mundo para funcionar de forma análoga à natureza, com o detalhe de que a natureza não computa emoções, aspecto em que o ser humano está repleto até à ignorância. Lidar com essa onda de sim ou não tem sido um desafio considerável nos últimos tempos. Antes, podíamos até com certa tranquilidade informar a um interlocutor qualquer qual era o time do coração sem esperar receber como retorno uma pedrada no intestino, ou uma navalhada na retina. Hoje, é aconselhável pedir a ficha corrida da pessoa, para evitar demandas judiciais.

O sentimento de que somos obrigados a pertencer a algum lado, majoritariamente nos atrai para uma cilada que só percebemos depois de estarmos nela enredados. É terminantemente proibido ficar do lado de fora. Se quiser atrair o ódio de alguém é só indicar neutralidade e assim opera-se aquele milagre fantástico que é unir dois inimigos, já que não há nada no universo mais eficaz para unir duas pessoas, do que um ódio em comum. Estamos proibidos e, pior, condenados à não neutralidade. Foi-se o tempo em que havia um certo charme suíço em se dizer não estou nem lá nem cá. Hoje, isso ofende pessoas aclimatadas à nova era da opinião em que não basta tê-la, é preciso afirmá-la, e se possível morrer por ela, para dar mais brilho à futilidade.

Toda essa insana necessidade de polarização esmaga o pouco de humano que ainda sobrevive nos seres humanos movidos a redes sociais, a curtidas em quantidades industriais e a imagens cada vez mais falsificadas com recursos de trambiques digitais e doses cavalares de narcisismo. O que será desse novíssimo ser se lhe for tirado o wi-fi? Como reagirá se alguma lei marcial extinguir para sempre o .com?

Esse novo animal social, que só reconhece o seu igual e renega seu diferente não como um ponto de estímulo natural, com o desejo de querer superá-lo por alguma qualidade invejada; não!, esse diferente precisa ser exterminado para que o outro possa avolumar sua razão suprema e divina sem nenhuma oposição, porque a opinião dele e só a dele é que contém o germe redentor da certeza e a semente de todas benesses prometidas pelas religiões  e racionadas pela ciência.

No habitat do Homem Igual não cabe reflexão, ele age movido por uma força irrefreável que o cega de forma absolutamente dócil a ponto de fazê-lo crer ser proprietário inconteste de todas as belezas do mundo; do real, aquele encontrado na internet, e do irreal, aquele mundo bem mequetrefe em que as pessoas iam à feira comprar bananas.

Foi da contraposição de ideias que nasceu a filosofia de Sócrates que, de alguma forma, moldou nosso mundo total. Se o filósofo houvesse nascido na Era do Homem Igual, teria sido aniquilado antes que proferisse o primeiro enunciado.

Os gregos de então, excessivamente mais tolerantes do que nós, o toleraram até a velhice. Imagine a loucura dele a exortar a necessidade de ouvir a todos e deixar a Razão ou pelo menos a temperança definir os destinos dos pensamentos?; seria hoje impensável. Se o pensado teria como recipiente a latrina ou certa imortalidade séculos adiante, não caberia ao pensador decidir. 

Mas ao íntimo sentimento de que é das diferenças que vicejam as mais belas formas de tudo o que compõe o que nos cerca. Ainda que estejamos cercados por donos de certezas absolutas é sempre de bom-tom desconfiar em permanência, ainda e sobretudo daqueles que desconfiam de tudo. 





Alex Bezerra de Menezes - escritor, autor dos livros Depois do Fim (Editora Simonsen) e Incandescências e advogado.




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